Escrevo pequenos poemas que escorrem das minhas noites insones. São autobiográficos? Não e sim. Poemas simples, de quem precisa da escrita como precisa de ar. Por que escrevê-los num blog? Porque preciso de amigos, amigos-estranhos e de estranhos, penetrando no texto com observações impertinentes. Posso me arrepender disto? Posso. Mas como sou estupidamente apaixonada pela vida perigosa de todos os dias, vou começar..
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Me levam até você.
Sinto cheiro de corpo,
Se aproximar do meu pedaço.
É quase um vento que sopra,
É quase experimentar um barato.
Sua mão descabela meu cansaço.
Incendeia meu vocabulário.
Nele, tudo que for indecente,
Tem seu lugar.
Nada escandaliza,
Tudo compõe.
Ouso flor vermelha no decote,
Laçarotes e exageros.
Tudo casado com o batom,
Despretensiosamente.
Esse vento bom,
Bate a porta,
Para tudo que for ontem.
Agora,
suspiros interrompem meu cinema.
Nosso banho, quase cena.
Só esse olhar de fera me guia.
Deixa-me torta,
Tonta e destemida.
Suspeito que visitas
Cabem no meu vestidinho rosa chá.
Então, as dores são esquecidas,
Como um bêbado ao desprezar o corte.
Danço valsa com os pés cortados.
E não dói.
Minha roupa foi tirada,
E não sinto frio.
Minha pele foi trocada,
Sinto um arrepio.
Sou bicho novo,
quase outro e sem freio.
LETRAS INSONES
sábado, 4 de fevereiro de 2012
se escreve a dois ou mais,
não é tarefa solitária,
é povoada e demais.
Meu poema
carrega outros tantos,
é um jantar intimo,
com amigos estranhos.
Meu poema,
não é coisa pura,
é fonte contaminada,
de sol, chuva e alguma trovoada.
Meu poema
por mais singelo que pareça,
é engodo, monstro esperando leve,
pelo almoço.
Meu poema,
é resto e tem pouco de rosto,
hoje, espero que ele não insinue
a presença de velhos outonos.
letras insones
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Sou a aresta que resta
pra você aparar,
Voce que não gosta de festa
e prefere a retidão.
Aconselho: me apare com precisão,
para aquilo que sobrar,
não derreter seu coração.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
No amor,
Não busco acerto,
No amor quero
concerto.
No outro,
Não procuro
espelho,
Com o outro
arrisco mosaicos.
sábado, 27 de agosto de 2011
Ipês roxos e amarelos
disputam a minha retina,
tonta de beleza,
escorre poesia.
Na mata da minha infância mora o espanto;
bambus conversam com o meu silêncio,
malacachetas incendeiam meus riachos,
carrapichos ousam ser mais do que espinhos; enfeites.
Nessa trilha habitam a beleza desesperada dos cogumelos,
a luz divina dos vitrais de sereno, teia e sol.
Neste instante borboletas azuis pousam no meu coração,
ele voa.
Sapos infames espantam meu mau humor; sorrisos.
O cheiro de chão me abastece de bom sentimento; suspiros.
Caracóis são anzóis que me prendem à terra amorosamente.
Coisas estranhas invadem meu sossego;
bicho de pau, grilo, esperança e medo.
Margaridas sem vergonha,
seduzem meus cabelos, indecentemente.
Encarno libélulas lambendo o sol no espelho d'água.
Com as Contas de Nossa Senhora, brinco de paraíso.
Na mata da minha infância,
sou um pouco bicho, criança e planta.
Agosto
Vivo do torto dos meus pensamentos
justo daquilo que é coração,
Aquilo que escapa do relatório,
da planilha, da encadernação.
São inclassificáveis as coisas que têm força
pra mover o amanhã.
Não tem nome o que me faz aplaudir o pôr do sol do Gragoatá,
e namorar os trilhos de São Domingos.
Sigo entusiasmada por estas ruas, adivinhando fugas.
Dentre elas a que mais me agrada:
uma tarde brincando no Jambeiro.
Neste particular, o que urge é água de coco pra minha filha.
Compro na Boa Viagem.
Ficamos, eu mais ela, encantadas em nossa ilha.
Risos, formigas, sorvetes, castelos de areia, baldes de alegria.
Formamos uma dupla incansável,
repetindo descobertas inéditas.
Dormideiras, borboletas, pipas, pombos doentes, cães vadios.
bebês, babás, cabelos brancos, balanços, passarinhos.
Nessa imensa tarde que nunca tarda
mais um instante que nos ata, lentidão.
Viivo do que não se esquadrinha,
do que não pode ser calculado,
Vivo de movimentos incontroláveis,
para os burocratas; desagradáveis
Vivo do que as crianças me ensinaram;
ter apreço por esticar o tempo
a favor da poesia.
letras insones - Agosto de 2011